domingo, 18 de julho de 2010

Pinturas murais sobre a Eneida de Vergilio, na Rua do Sembrano

A Eneida de Virgílio numa pintura mural da Rua do Sembrano em Beja


O texto que acompanha estas fotografias é semelhante ao que enviámos, em Janeiro deste ano (2009), por e-mail ao arqueólogo Jorge Feio, pedindo-lhe que dele desse conhecimento à sua colega Ana que acompanhou, desde o início, as obras de remodelação de um antigo imóvel da cidade de Beja, sito na Rua do Sembrano nº 38, 40, 42 e 44, da freguesia de S. João Baptista, onde se descobriram várias pinturas murais, realizadas a óleo sobre estuque, com temáticas decorativa e histórica. Ao fim de seis meses, dado que as pinturas já desapareceram, deixamos para a posteridade o testemunho da sua existência (publicado no Diário do Alentejo, em Julho de 2009).
A freguesia de S. João Baptista é, na história e no plano urbanístico da cidade de Beja, a que reúne as casas mais ricas e mais salubres, devido ao seu posicionamento na encosta sul, ficando expostas ao sol durante a maior parte do dia. É, igualmente, a freguesia onde se têm encontrado mais pinturas murais, algumas já destruídas, e um número razoável de vãos com cantarias góticas e manuelinas. O imóvel que tentaremos descrever integra-se com toda a justiça neste ambiente senhorial.
A casa de dois pisos, com uma área de base que ultrapassa a própria fortificação medieval, de implantação romana, está hoje bastante reduzida na sua antiga volumetria, conclusão a que se chega pela análise de vãos entaipados que a ligavam aos edifícios adjacentes. Muito modificada no século XIX, dela desapareceram os brasões que ostentava (um deles encontra-se na colecção “Zésinho Santos”, de José Mendonça Furtado Januário, propriedade da câmara municipal de Tavira) dos fidalgos Faria e Melo. Na mesma rua e ao lado, no nº 36, subsistem em, pelo menos, duas salas, pinturas murais, também executadas a óleo sobre estuque, de carácter romântico, assim como retratos da realeza da 1ª dinastia – a casa pertence ao nosso amigo, professor Francisco Lopes Pereira Guerreiro, cujos progenitores nela viveram desde meados do século XIX, e vem estudada por Túlio Espanca, a pp.211 e 212, do Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Beja, publicado pela Academia Nacional de Belas-Artes, Lisboa, 1992. Segundo a informação autorizada de Pereira Guerreiro, não só a sua própria casa integrava esse grande palácio dos Faria e Melo, como se prolongava pela área do Desportivo de Beja.
Para a memória e inventário do imóvel considerado, que a empresa Construções Moinhos de Santa Maria, sua proprietária, pretende adaptar a vários apartamentos T1 e T2, revela Túlio Espanca (1992, 214) que o número de polícia 38, apresenta um portal manuelino, de verga lobulada, composta por duas pinhas estilizadas, de relevo, do 1º terço do século XVI; o nº 42 possui uma verga semelhante à anterior, golpeada no alfiz, por inscultura de volutas com enrolamento - os restantes elementos, que admitimos [diz o autor] terem pertencido a outro portal, substituíram os desaparecidos, originais, também do 1º terço do século XVI; e o nº44 que, devido à falsa pilastra que parece dividir o imóvel, Túlio Espanca considera como sendo de outra casa: “Casa antiga, com portada de verga direita, jambas de chanfros e bases flordelizadas, de pedra da região (séc. XVI). Janela guarnecida por grades de ferro com varões serpentiformes (séc. XVIII).”


A pintura mural

Procedemos à descrição sumária da pintura mural que se distribuía, no essencial, por três salas do edifício. Havia mais pinturas, também realizadas a óleo, mas em lastimável estado de conservação, que acompanhavam, com simples molduras e leves ornamentos geométrico-florais, os contornos dos vãos e salas onde se integravam. Descrevem-se as salas 1, 2 e 3. A primeira no 1º piso, correspondendo ao número 42 de polícia, com vão de porta transformado em janela gradeada, conserva um lintel manuelino; e as outras duas, no 2º piso, adjacentes, e sobrepostas aos números 42 e 44 de polícia (ver planta parcial e fotos).

Sala 1 (do relatório realizado em Janeiro deste ano):
Cobertura de abobada, actualmente sem decoração, enquanto as paredes são pintadas com elementos arquitectónicos perspectivados, “pilastras adossadas”, fazendo lembrar, de modo estilizado, a pintura “tromp l`oeil”; as molduras de cor acastanhada, decoradas com motivos fitomorfos estampados, de cor azul, terra de siena queimada e vermelho, assentam no rodameio, abaixo do qual se “aplicaram” placas marmoreadas. Tudo é pintado no sentido de enganar o nosso olhar.
Infelizmente, só uma das paredes conserva uma parte razoável da ornamentação desta sala (já nada existe, foi toda picada para levar novo reboco).

Sala 2
Situa-se sobre a sala 1. É de todas a mais interessante, com painéis historiados, figurativos, fazendo a apologia da origem de Roma. Pela representação das ninfas, cupidos, princesa ou rainha (Dido, de Cartago?), um fauno (representará o rei mítico do Lácio?) e Eneias, mais as legendas, reporta-se ao poema heróico da “Eneida”, do poeta romano Virgílio, obra clássica de carácter mitológico escrita para César Augusto. O autor, Virgílio, morreu em 19 a. C., sem a finalizar, já tinha doze cantos, com cerca de 8000 versos destinados à glorificação e legitimação dos poderes divino e imperial.
O conjunto pictural, com cinco painéis, parece ser obra de artista popular, com boas noções académicas de composição e técnica de pintura. Integra provavelmente diversas fases da Eneida, por exemplo, quando Eneias salva o pai e o filho durante o incêndio e destruição de Tróia por Pirro: “Eneas salvou o pay, e na fugida/ A quem lhe deu o ser lhe aumenta a vida.” (legenda do painel A, alusiva obviamente ao inicio da Eneida); outra legenda, parcialmente ilegível, num painel maior, B, parece fazer referência às ninfas, musas ou graças, que, em numero de três, mais dois cupidos, embelezam provavelmente Elisa ou Dido, rainha de Cartago: “Ap??era(?) Ven(us?)? a d`Ama??? (t?)aças/ ?? servida por mãos das belas Graças.”; outro painel, C, dividido por uma parede de 15 cm de espessura, representa sete figuras, quatro mulheres (as ninfas e uma princesa ou rainha?) e três cupidos, percebendo-se ainda o principio de uma legenda: “O petulant(e) ?????/ ?? ???”; outro painel, D, também dividido pela referida parede, e haveria talvez mais um ou dois painéis na parede do fundo E, quase nada resta a não ser uma legenda: “? Apolo e a lira de (o)uro/ ? convertida em l(ou)ro”, cujos versos poderão referenciar a metamorfose da bela ninfa Dafne em loureiro; o último painel, F, aparentemente já não tem legenda ou nunca a teve, representa seis ninfas?, associadas aos pares com expressões e atitudes diferentes – de resignação, rejeição e vigilância – perante um fauno preso ao tronco de uma árvore (como há uma relação directa entre as mitologias grega e romana, este fauno romano, divindade protectora dos campos e dos gados, até poderia ser Pã, deus dos bosques, grego, filho de Apolo). Fauno, é na Eneida, o terceiro rei do Lácio, cujo filho Latino, a conselho dos deuses, deseja casar sua filha Lavínia com um guerreiro estrangeiro, Eneias, precisamente o herói troiano.
Assim, o painel A tem 70cm de largura; o B, 220; o C, 225; o D, 50 e o F, 235. Entre o rodapé e o rodameio de tons sanguíneos, com cerca de 70cm de altura, pintaram-se imitações de placas marmóreas de tons azulado-esverdeados, como se suportassem as molduras de contorno acastanhado dos painéis que atingem a altura de 240cm. As figuras, assim como o esboço de paisagem, lembram de forma mais pobre alguns dos ambientes das pinturas a fresco de Pompeia ou Herculano, e podem ser cópias de livros ilustrados com gravuras dos séculos XVIII ou XIX. Há um certo ar romântico - com a apologia dos tempos áureos, das tormentas e da esperança - que remete este conjunto de pintura mural para a segunda metade do século XVIII.

A sala 3
Adjacente à anterior, conserva parcialmente uma decoração de base ocre dividida verticalmente por linhas cinzentas e decoração vegetal, fazendo lembrar o papel de parede. À base de cal, o seu colorido e desenho desfaz-se com facilidade. Tal como na sala 2, tudo aqui foi picado, levemente rebocado e coberto de várias cores, entre azul, ocre, e branco, ao longo dos últimos cem anos.

Concluindo: as pinturas já não existem, facto consumado. Foram interrompidas as pontes culturais que poderiam vir a ser criadas com a sua preservação - nomeadamente na relação temática com o célebre mosaico romano, descoberto em Alter do Chão, pelo arqueólogo Jorge António (cf. Público 16/02/09) , representando o último canto da Eneida de Virgílio.

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